Lá por meados de novembro passado recebi a visita de um querido amigo, que veio de Sampa para visitar a Ilha. Depois de uma noite frustrante no El Mexicano da Beiramar (realmente eles são muito inconstantes por lá...), a ideia era me redimir. Levei o Rafael a Santo Antônio de Lisboa, para aproveitar as belezas naturais e as maravilhas gastronômicas da região.
Estacionei em frente ao Deck Santo Antonio, um lindo restaurante, com um visual moderno e clean, segundo o Rafael. Para mim, um aquário chique, bonitão e aconchegante. Na porta, fomos muito bem recebidos pela hostess, que nos orientou sobre os ambientes do restaurante. Ao total são três: o primeiro, fora do Deck, com espreguiçadeira, cadeiras de madeira e uma vista fantástica para o mar; o segundo fica na parte de baixo do deck, mas não pude conferir, já que o Rafael me arrastou para o terceiro ambiente, que ficava na parte de cima.
O visú lá de cima, by Joaquim
Nos instalamos e como o dia quente pedia um chope, iniciei os trabalhos, disposto a deixar minhas mãos abertas e gastar o suficiente para que pudesse compensar a noite anterior. Em um piscar de olhos o garçom voltou com o meu chope geladíssimo e, para minha surpresa, era Schornstein, o melhor chope que eu já tive o prazer de tomar (estou perdendo tempo, ainda não provei. Se um cara que morou na Alemanha e tem um histórico de cevada como o Kim está falando, não tem discussão).
Até aí tudo corria bem. Bom atendimento, um preço razoável e um chope de qualidade e geladíssimo. Tanto que o Rafael não resistiu e acabou me acompanhando. Depois de três chopes para o time da casa contra dois para o visitante acabamos escolhendo um dos melhores aperitivos possíveis para um restaurante de frutos do mar: lula a dorê. Apesar de levemente moreninha, a lula estava macia e quentinha e o empanado crocante. Ponto para o Deck.
Lula a dorê, by Joaquim
Foi então que decidimos, por fim, qual seria o rango da noite. No clima de “desce mais um chopp”, acabei incentivando a opção do Rafael pelo camarão na moranga, sem saber do infantil acompanhamento: arroz com batata-palha. Me convencer foi fácil. Difícil foi esperar o garçom por mais de meia hora, com o restaurante vazio, as mãos abanando e barriga roncando.
Pedido feito, algo muito estranho pairou no Deck. O chope seguinte estava quente. Tive que pedir duas vezes para trocar, esperando pelo menos quinze minutos entre os pedidos. Enquanto a epopéia do chope, agora gelado, se encerrava, acompanhamos um leve barraco que aconteceu na mesa ao lado. Um senhor havia pedido um bobó e reclamava do camarão, que estava congelado no meio. Pra tentar me convencer, pensei “bobó é bobó, camarão na moranga é camarão na moranga” (como diria o poeta, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa completamente diferente. E vice-versa).
Quarenta minutos depois, uma mulher que parecia ser a chef nos trouxe o prato, pedindo desculpas pela demora. Naquele momento, estávamos famintos e gentilmente acolhemos os pedidos abanando a cabeça e acompanhando a modesta, mas satisfatória porção de arroz e batata-palha. Em seguida, do alto das mãos da chef, eis que surge ela, a moranga. (não temos fotos da dita cuja)
Pobre vegetal, murcho, feio, esfaqueado pelo lado de fora e, provavelmente, com algumas mesas anteriores no currículo. Ignorei a reciclagem, levando em conta a minha leve noção do funcionamento de um restaurante e da prática do “reaproveitamento” (essa galera nem pra contribuir com a economia local e comprar umas míseras morangas no Direto do Campo...).
Foi aí que a prova viva de que nem sempre a fome é o melhor tempero se manifestou. Estávamos pagando pouco mais de R$ 70 para comer um camarão com mingau de moranga. O creme estava ralo, sem sabor e empelotado, com sinais fortíssimos de ter sido engrossado com maisena. Me senti triste e roubado, e a contra gosto comemos sem reclamar na hora, cientes de que estávamos sendo enganados.
A conta foi na casa dos três dígitos, o atendimento foi bom enquanto durou e quem salvou meu dia foi a lula a dorê, o Schornstein gelado, o visual e a companhia do meu bom amigo. A prova viva de que outras máximas podem ser usadas sem medo. Bonitinho, mas ordinário, por exemplo.
Preço: $$$$
Atendimento: ☺☺
Momosidade (casal): ♥♥♥♥
Aceita cartão de crédito / débito
Serviço:
(48) 3234-0787
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